“Eles dizem a que vieram.”

Acho que a primeira coisa que eu quis ser na vida foi bailarina. Minha mãe conta que, quando pequena, eu  andava na pontinha dos pés. Isso lá com meus 2 anos de idade. Era um hábito tão frequente que ela achou que eu estava com algum problema motor, me levou no médico e esse, na sua experiência, olhou para mim e disse: Querida, ande com os pés inteiros no chão – e eu andei. Nenhum problema, mãe.

Mas a vida passa, como areia escorrendo no meio dos dedos. E nesse escorrer do tempo e das coisas eu quis ser veterináriabióloga marinha, cantora, paquita, química, estudiosa de filosofia, engenheira mecânica… Não necessariamente nessa ordem – tanta coisa que nem lembro mais.

Acabei estudando para ser designer. De que, eu nem sei. De moda, gráfico, de produto, automobilístico (oi?). Na verdade eu não queria nada disso, sabe. Eu  estava no fluxo do mundo, tendo que escolher minha vida num catalogo que me deram no cursinho preparatório do famigerado vestibular. Aquela provinha que “avalia” o seu “conhecimento” sobre várias coisas que você jamais usará na vida… Sadbut true my friend.

Meu irmão chama esse correr atrás de coisas que não fazem sentido de verdade para você de “remar conforme a maré”.

Camapuã, serra do mar

Mas a vida da voltas, babe. E quando a gente se abre para as possibilidades assim, de peito aberto, e disposto a aceitar o que der e vier com um sorriso no rosto e as mangas levantadas, o universo conspira.

Eu larguei os bets. Eu resolvi que não dava mais. Eu descobri que trabalhar num escritório, 8 horas por dia ou mais, na frente de um computador, fazer tarefas repetitivas… Ah! Isso tudo era uma violência contra mim mesma. Saí!

Saí mesmo, assim, sem mais nem menos, sem nem saber o que é que eu ia fazer. E eu fui la fazer as aulas de cerâmica que estava querendo a um bom tempo, por hobby mesmo. Eu gostei. Gostei tanto que a minha cabeça começou a se povoar de ideias de peças, de ideias de técnicas, de dúvidas e de respostas.

Foi assim que a cerâmica me ganhou. Com as mãos no barro eu me senti criança novamente. Aquela menininha lá, na ponta dos pés. Tão criativa e inovativa. Tão determinada nos seus projetos de cortar, colar, pintar e bordar. Com as mãos no barro eu aprendi – e aprendo sempre – que cada coisa tem seu tempo e que, se permitir esperar trás resultados muito mais incríveis do que ter pressa.

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A cerâmica veio em uma hora em que eu estava me encontrando. E com sua intensidade e complexidade contribui imensamente para eu me conhecer e me trabalhar, ao mesmo passo em que aprendo a trabalhar a argila para criar o que minha mente cria  em ideia.

Resolvi que seria assim, em ritmo lento. Decidi “deixar fluir, deixar rolar”, sem grandes expectativas, sem ansiedade. E a coisa fluiu, e fluiu tanto que hoje, pouco mais de 3 meses depois de eu ter feito minha primeira pecinha de barro, eu vendi minhas primeiras peças.

“Eles dizem a que vieram.”, foi o que disse minha cliente simpaticíssima.

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É uma sensação incrível poder ver algo que fiz com tanto carinho, algo que significou um ciclo tão importante na minha vida ser visto assim, por outras pessoas, como algo valioso. (Clica aqui para conhecer a historia destas peças.)

Agradeço todos os dias a todos os envolvidos e responsáveis por minhas conquistas na cerâmica, e agradeço ainda mais a mim mesma, por, depois de tanto bater cabeça nessa vida, me permitir chutar o balde, e me assumir artista.


 

Quero ressaltar que toda e qualquer profissão e carreira é linda e tem seu mérito no funcionamento do nosso mundo. A minha história é única e exclusivamente minha. Eu acredito que cada um deve fazer o que ama, o que dá prazer, o que trás felicidade. E fazer isso com amor, com prazer e feliz. Tudo tem seus altos e baixos. Mesmo o que amamos tem seu lado boring, mas saber se trabalhar e se respeitar é tudo nessa vida!

Cynthia Sarmento

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