Me deixe te contar uma história.

Era uma vez uma garota que cresceu aprendendo de tudo. Teve muitas oportunidades, fez natação, artesanato, computação. No colégio foi representante de turma, teve aulas de teatro e robótica. Em resumo, era a cultura em pessoa. A potencialidade em pessoa. Ela aprendia tudo, muito rápido. Bom, tudo o que interessava… O que não era pouca coisa. Um belo dia ela teve que escolher uma única coisa. Ela faria uma prova e teria que estudar por alguns anos esse único assunto e depois isso seria o que ela faria para o resto de sua vida (cof!). Ela não soube o que fazer. Não tinha nada assim… que ela quisesse escolher para o resto da vida. Ela optou pelo que algumas pessoas disseram que era a cara dela, fez a prova e estudou aquilo.

No meio daqueles anos em que deveria se dedicar unicamente a esse aprendizado, ela cansou. Ela se deparou com pontos que contradiziam muito suas crenças pessoais, ela ia mudando, naturalmente, e as coisas muitas vezes foram ficando fora do ela queria para si. Foi ela, então, estudar de tudo um pouco novamente, conhecer o mundo e as coisas. Conhecer as pessoas. Um dia disseram para ela que teria que  trabalhar, justamente ela, que nunca precisou fazer nada em casa. Ela ja tinha trabalhado em colônias de férias no verão ou na loja do shopping para juntar uns trocos e não precisar pedir pro pai. Mas agora o mundo dizia que ela precisava se sustentar, ganhar dinheiro “de verdade”. Ela então foi trabalhar com aquele tema específico que tinha estudado um pouco naqueles anos subsequentes à escolha. A contragosto, se quer saber. Eventualmente precisou voltar a estudar mais sobre ele pois as pessoas ainda cobravam dela um papel. Um papel que dizia que ela tinha estudado para fazer aquilo que ela já fazia, e fazia bem. Ela tentou de todas as formas se empolgar, se animar, ser um boa funcionária. E ela foi.

Todos os chefes que teve, desde o primeiro estágio até à grande companhia (com duas excessões) elogiavam seu trabalho. Ela, além de fazer muito bem aquilo que se referia ao tópico do estudo, e do trabalho, conhecia de muitas outras coisas e comunicava muito bem suas ideias. Dessa forma ela conseguia ligar os pontos, criar coisas, interagir, criar conexões entre diferentes tópicos e pessoas. Ela até conseguiu o tal papel, mas ninguém nunca quis ver. Ela colocou ele em uma gaveta e deve estar lá, até hoje.

Então, ela cansou. E nesse cansar ela acreditou que teria que aguentar. Todo mundo aguentava. Todo mundo tinha que ganhar dinheiro. Todo mundo estava cansado.

Ela engoliu, e aguentou, e passou por cima do cansaço até que ela ficou doente. Primeiro do coração, depois da mente.

Com o tempo ela não fazia mais o trabalho com vontade. Ela fazia o estritamente necessário. Não criava, não ligava, não interagia e nem conectava mais. Foi quando ela ficou doente do corpo, que ela resolveu parar. Não importava mais se o mundo todo dizia que ela precisava seguir aquele ciclo. Que todos seguiam o mesmo ciclo. Ela decidiu que não seria como todo mundo. Ela não queria ser doente.

Com o apoio da família e de seu amado, que é uma daquelas pessoas sortudas que desde cedo se interessaram, estudaram e sonharam com uma coisa e, por fim, trabalhavam com aquela coisa e isso fazia da sua vida a vida mais incrível de todas, ela, que era diferente, e ao mesmo tempo tão igual a tantos outros que estavam cansados, parou.

Nesse parar ela teve tempo de finalmente não estudar nada. Não fazer nenhum curso e nem precisar ganhar dinheiro. Ela foi cuidar do seu corpo doente, da sua mente doente, do seu coração doente. E nesse cuidar ela descobriu muitas coisas sobre si mesma. Até que ela (re)descobriu suas mãos. Elas estavam lá, desde sempre, acompanhando praticamente tudo. Elas se moviam nas aulas de ballet de forma graciosa, elas soldavam, serravam e martelavam nas aulas de robótica, elas cortavam, colavam, pintavam e bordavam no artesanato, elas empurravam a água na natação e seguravam seu corpo na ginástica. Elas fechavam os buracos da flauta e escreviam mil cartinhas a amigos e amores. Elas digitavam e criavam o que sua mente projetava, depois elas manipulavam as máquinas e limpavam os protótipos impressos. Elas desencapavam cabos, montavam mecanismos, montavam bijuterias… Elas mexiam as panelas e cortavam os legumes com maestria. Elas tinham até mesmo aprendido a plantar, e a colher. Elas modelavam o barro e colhiam as amoras e chuchus. Elas seguravam outras mãos, desde as bem enrugadas até as rechonchudas que cabiam, duas, na palma de uma só mão. Elas espremiam a lã dentro das bonecas de pano e seguravam as agulhas de bordado, crochê, tricô e até mesmo as agulhas que costuravam lombadas de livros e cadernos feitos à mão. Suas mãos, que ela sempre achou serem meio errugadinhas de mais para uma garota de 26 anos. Aquelas mãos de unhas esguiar e finas, com calos que não pertenciam a mãos de menina… As mãos que saíram idênticas às de sua mãe. Elas ficaram lindas  e, de uma hora para a outra, se tornaram a parte favorita de seu corpo.

Essa menina, ao encontrar suas mãos depois de tanto tempo percebeu que não deu a elas o valor que tinham. Mas suas mãos não haviam desistido dela, jamais. Nunca falharam, sempre estiveram a seu lado. Ela então resolveu que daria uma chance a si mesma de deixar suas mãos serem as protagonistas da sua vida. De terem sua vez, de terem sua voz.


 

Quero, por fim, deixar para vocês um trabalho de faculdade que fiz. São fotos, de mãos.

Ensaio Mãos.

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Se você gostou do post, comenta aqui em baixo para eu saber! Me conta a tua história, vou adorar saber, mesmo. Pode me mandar no formulário de contato também se não quiser deixar aqui nos comentários.

Até a próxima.

Cynthia Sarmento

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