Te aviso desde o primeiro momento que eu não sou expert em nada aqui. Iniciei na cerâmica em outubro de 2015, o que faz de mim nada além de uma iniciante neste universo infinito de barro, pózinhos mágicos e altas temperaturas.

Tudo o que você vai ler daqui para frente não passa do fruto dos meus estudos, pesquisas, muito trabalho e dedicação à cerâmica, coisa que passou a ser parte da minha vida de uma forma que eu nunca sequer sonhei.

Dito isso, podemos começar!


 

E nada melhor para começar, que efetivamente o começo, não é mesmo?

Eu contei neste post aqui, de 2016, um pouquinho sobre como a cerâmica veio parar na minha vida, assim, sem mais nem menos, da forma mais despretenciosa possível. Agora vou contar para vocês como e porquê ela ficou e criou raízes enormes que só crescem, todos os dias:

 

O que é cerâmica?

 

A definição básica de cerâmica que mais me agrada é o bom e simples argila cozida. Sim, cozida. Você poderia dizer queimada também… sinceramente não vejo nenhum impedimento para falar assim, mas a maioria das bibliografias que eu li falam de cozer e acho que me acostumei com o termo, é isso.

Se você procurar no google, facilmente terá definições como “potes e outros artigos feitos de argila endurecida através do aquecimento” entre outras coisas um pouco mais estéticas, relacionadas ao campo das artes bem como definições que falam sobre a composição química do material.

De qualquer forma, cerâmica é argila cozida, em todas as situações.

E aqui eu começo a trazer vocês um pouco para o meu universo: Eu AMO química haha
Não sou nenhuma expert no assunto mas era minha matéria favorita no colégio, foi o curso que escolhi para prestar vestibular de teste quando estava no 2º ano e bom, passei mas não cursei, eu sei lá porquê! Depois no vestibular que valia de verdade eu fiz filosofia… depois design e essa é a vida folks!

Agora que eu contei para você o que é cerâmica espero que tenha surgido na sua cabeça as duas primeiras dúvidas que surgiram na minha:

  1. Tá, mas o que é argila? Barro? Terra? O que faz dela especial para que vire cerâmica?
  2.  Que temperatura eu tenho que cozer a tal da argila para que ela vire cerâmica?

Vamos lá!

 

O que é argila?

 

Argila é o componente mais presente de toda a crosta terrestre, então acredito que não precisamos ter preocupações quanto à extinção do material… hehe…

Mas tecnicamente falando, argila é o resultado da decomposição de rochas através do intemperismo (forças da natureza, por assim dizer), especialmente a oxidação de alguns componentes desta rocha causada pelo contato com a água da chuva, de rios…
Estes fatores naturais, atingindo as rochas por milênios e milênios fazem com que eslas percam parte dos elementos que as compõe, os metais alcalinos e alcalinos-terrosos (momento nostalgia segundo grau!) deixando que aquela, até então rocha, agora destituída destes metais específicos, possa ser chamada de argila, ou seja, que sobrem ali apenas os óxidos de silício e alumínio.

Sim! Argila, na sua composição natural mais básica, é silicato de alumínio.

Então se você, assim como eu, já teve essa curiosidade: o que faz de uma porção de solo ser especial o suficiente para ser chamada de argila, é que em sua composição prevaleça o silicato de alumínio 🙂

 

E como é que a argila vira, enfim, cerâmica?

 

Temperatura, meus queridos. Um bocado dela!

Desde que o ser humano resolveu guardar alimentos e se manifestar de forma religiosa existe cerâmica e vamos concordar que isso faz muito, mas muito tempo, tipo… mais de 20 mil anos (o potinho mais antigo que eu vi tem 12 mil e parece piada né?). Como nessa época não existiam grandes tecnologias de queima – nem de mais nada – uma boa e velha fogueira deve ter sido o ponto de partida para a produção da argila cozida, depois, evoluindo a técnica para buracos no solo e, mais para frente, fornos feitos de barro… a hora que alguém inventou o tijolo deve ter sido muito mágico, imagina?!… E sim, algum dia alguém inventou o tijolo gente!

Bom, o fogo é uma coisa muito louca pois ele pode muito bem aquecer um forno que atinge 180ºC, como nosso forno de cozinha, mas também um que vá a 1300ºC ou mais. No entanto, temperaturas muito altas  só são possíveis em condições bem controladas de isolamento térmico e com muita técnica envolvida. Em uma fogueira ao ar livre a perda de calor para o ambiente é tanta que faz de temperaturas tão altas assim simplesmente impossíveis de serem atingidas.

Mas o fogo em si é a consequência de uma reação química que libera energia em forma de calor, ou seja, ele em si, pode esquentar infinitamente. O que limita a temperatura é a nossa capacidade de reter e conservar este calor, essa energia liberada. O que limita a temperatura a ser atingida é o isolamento da troca de calor  da atmosfera onde o fogo queima com o restante do ambiente.

Sendo assim, a fogueira em que as primeiras, ou a primeira peça de cerâmica foi cozida tem que ter dado conta de fazer aquele pedaço de argila chegar a pelo menos 500ºC, pois é por volta desta temperatura que se chega a uma mudança irreversível na estrutura do material (a argila). Eu explico:

Quando fazemos uma peça de argila, antes de cozê-la, precisamos que ela seque o máximo possível, o famoso ponto de osso. Quando seca, mas ainda crua, se retornarmos a argila para a água ela hidrata novamente e perde a forma modelada, neste caso pode ser retornada ao ponto de modelagem. Agora, se ela sofre uma transformação química, o que acontece ali por volta de 200 a 400ºC – a perda da água química – aquele pedaço de argila não se hidrata mais, se submersa em água ela não perde mais sua forma, cria-se, portanto, cerâmica!

Nota 1: absorver água não é a mesma coisa que hidratar!

Nota 2: água química são as moléculas de água formadas pela transformação das moléculas de sustentação da argila (OH) conforme a seguinte fórmula: [argila]-OH-HO-[argila] → [argila]-O-[argila] + H2O(g)
(Se ficar com dúvida aqui e entende inglês, leia este artigo aqui. Se não entende inglês me manda um comentário aqui em baixo que eu te explico com mais detalhes, aqui está beeeeeem resumido)

A cerâmica, portanto, é o resultado de uma transformação química que acontece com a argila quando é submetida a uma atmosfera de temperatura acima de 400ºC, mais ou menos.

Esta transformação faz com que aquele material, que até então era rocha decomposta, se torne, praticamente um novo material com a potencialidade de durar por milênios e resistir à ação das intempéries. É um material não metálico, muito resistente a altas temperaturas, resistente à oxidação e corrosão, muito bom isolante térmico e elétrico… enfim, um novo material que tem características únicas, valorizadas pela humanidade em diversos segmentos industriais (sabia que os foguetes espaciais são revestidos de placas cerâmicas?) e, no nosso caso aqui, extremamente valorizadas para o uso criativo e criação de peças utilitárias!

Nota 3: Todos nós que fazemos cerâmica temos uma responsabilidade gigantesca com o que produzimos pois se existem, em museus e acervos de colecionadores, peças de cerâmica datadas com mais de 20 mil anos, isso quer dizer que o que criamos tem a potencialidade de durar isso tudo e ainda mais a partir do momento em que decidimos colocar estas peças num forno. Se criamos lixo, nosso lixo vai durar mais de 20 mil anos. Já pensou nisso?

Concluo por aqui, dizendo que a cerâmica é incrível. Ela nos ensina muito em sua relação praticamente arquetípica com nossa essência humana. Ela tem essa personalidade de armazenar (alimentos, objetos, etc), de abrigar (casas, construções diversas…), de expressar (cultura, religião…). Ela é a exemplificação do potencial de transformação mais forte que eu já vi, que é criar arte, beleza, delicadeza literalmente com barro. From scratch. A cerâmica é presente na vida, cultura e história de todas as civilizações do nosso planeta justamente pela sua disponibilidade indiscutível, pela sua simplicidade em que usa terra e fogo para se fazer existir.

Tenho, no entanto, um objetivo aqui que é estudar a fundo esse universo, pois a partir do momento em que saio do campo cultural da produção de cerâmica e parto para o universo comercial, mais técnico, acredito que a busca pelo conhecimento a respeito de todo esse processo é imprescindível 🙂

 


Referências

  1. Minhas vivências e acervo de memórias aleatórias da vida
  2. Anotações pessoais do curso com Dolors Ros em abril de 2018
  3. Breuer, Stephen, The Chemestry of Pottery, https://eic.rsc.org/feature/the-chemistry-of-pottery/2020245.article, 18 de abril de 2018
  4. Daniel Romeiro, O Ateliê de Cerâmica – Vídeo para a Construtora Canopus
Cynthia Sarmento

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Join the discussion 2 Comments

  • Camila disse:

    Cynthia, adorei a explicação. Brigada! Fico sempre com uma dúvida: todo mundo que começa a fazer cerâmica em casa tem que ter um forno? Existem lugares para a queima?
    Bj

    • Cynthia Sarmento disse:

      Oi Camila, tudo bom contigo?
      Não é obrigatório ter forno não! Aqui em Curitiba, por exemplo, temos a Casa do Ceramista que faz queimas para fora. Acredito que em outras cidades tenham espaços assim também.
      Às vezes alguns ceramistas mesmo abrem seus fornos para queimas externas… é uma questão de perguntar e conversar!

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