A criação de uma peça de cerâmica pode ser feita de diversas formas. Algumas delas, especialmente criações artísticas e/ou terapêuticas (argiloterapia) se dão de forma expontânea, sem um planejamento ou ideação prévios, o que resulta em peças que traduzem muito do subconsciente de quem as cria. São peças pessoais, íntimas e que, por vezes, não chegam ao seu resultado final pois o objetivo de sua criação é apenas o processo de criar em si.

Outras porém, a grande maioria eu acredito – e isso é uma dedução minha, sem pesquisa, só achismo mesmo – percorrem um caminho mental antes de se tornarem realidade.

São trabalhos artísticos, expressivos, religiosos, culturais, bem como produções autorais de design ou mesmo industriais. Todos estes carecem de uma ideia, de uma vontade, de um planejamento prévio.

Qual forma? Qual tamanho? Qual cor? E para isso, qual material é melhor? Quantas peças serão criadas em reprodução? Qual a finalidade destas peças? Qual processo produtivo é melhor para atingir o resultado esperado?

Todas estas são questões que se precisa considerar antes mesmo de adquirir o material – argila, esmaltes, ferramentas, etc, com que se irá trabalhar.

Vou usar o meu exemplo para vocês terem uma ideia básica:

Eu tenho um projeto de design autoral – eu mesma crio o design das minhas peças com o objetivo de que sejam 1) únicas e exclusivas, 2) úteis dentro do cenário da alimentação, 3) representações de um estilo de vida que transparece a valoração da beleza através da simplicidade, ou minimalismo, como preferir chamar.

Meu objetivo é criar peças utilitárias que sirvam de forma eficaz como base para alimentos nutritivos e belos, que componham uma mesa aconchegante e visualmente atrativa sem serem uma distração mas sim uma moldura para a comida. Isso tudo permitindo que o processo produtivo, extremamente artesanal destas peças, seja visto e reconhecido através de cada uma delas, o que cria o real valor de peças que são feitas uma a uma, à mão.

Tendo isso tudo em mente eu pesquiso, desenho e experimento possibilidade. Estudo técnicas de produção e idealizo a criação de cada uma das minhas peças. Meus pratos, por exemplo, levaram mais de 1 ano para estarem da forma como eu, finalmente, me senti satisfeita com todo este processo e o resultado final.

Eu pesquiso formas, tamanhos, testo materiais para conhecer suas especificidades. Um prato de jantar de uso comum pode ter 24cm de diâmetro para caber em uma lava louças pequena, 26cm para uma lava louças grande ou 30cm para ser usado em um restaurante e por aí vou, avaliando e estudando possibilidades até que chego a um produto final, que atende às minhas especificações, à necessidade do meu cliente e ao padrão e imagem que quero para minha marca.

Se estamos trabalhando com um cliente pessoa jurídica, um restaurante, bar, bistrô ou café, e preciso desenvolver um projeto único e especial, desenho a peça, crio protótipos, testo cores, tudo para atender às necessidades de dimensão e uso de cada peça. Penso o processo produtivo conforme a quantidade de peças a ser feita. Penso se haverá reposição, como irei manter o padrão destas peças?
Preciso criar um molde? Criarei as peças com que técnica?

Faço cálculos para dimensionar volume. Estudo a pega das alças. Qual argila melhor resulta no objetivo que queremos, e por aí vai!


 

Como você pode projetar suas peças de cerâmica?

Eu refleti bastante e observei muito tanto o meu trabalho como de outros ceramistas e criei um passo a passo que pode te ajudar a projetar suas peças de cerâmica. Continue lendo aqui em baixo para ver minha sugestão para você tirar do mundo das ideias as suas peças:

 

Decida o que você quer fazer

É uma peça artística? É uma peça utilitária? É uma peça de representação cultural?
Vou continuar com o exemplo do prato que iniciei ali em cima. Eu quero fazer um prato!

Defina os detalhes da sua criação

Qual a forma desta peça? Qual o tamanho desta peça? Que cor ela terá? Quais características visuais e táteis esta peça deverá ter quando acabada? Será áspera ou lisa? Será pesada ou leve? Ela terá alguma decoração como pintura, estampa de uma marca, um entalhe ou relevo…

Aqui também é muito importante pensar em características subjetivas da sua criação: ela deve parecer delicada ou robusta? Deve transmitir uma mensagem? Ela precisa atender a alguma necessidade específica?

Aqui sua peça começa a tomar forma dentro de sua mente, mas é importante colocar tudo isso em um papel para que você não se perca no processo criativo e não esqueça de nenhum detalhe importante.

Exemplo:

O prato que vou criar será um prato retangular para servir um menu degustação de sobremesas em um restaurante. Ele deve ter 28cm de comprimento e 12cm de largura. Será um prato com bordas baixas e arredondadas. Os cantos serão bem pronunciados, praticamente com um ângulo de 90º.
Ele deverá ter uma cor neutra para não brigar com o destaque que os alimentos devem ter sobre ele: branco, cinza claro ou nude. Será decorado com círculos em baixo relevo indicando onde cada doce deve ser posicionado sobre o prato, serão 3 doces no total. Cada um destes círculos deve ter 6cm de diâmetro.
Deve ser uma peça leve e resistente, com características que indiquem sua produção artesanal como imperfeições nas bordas e variações de coloração.
As peças precisam ser empilháveis para facilitar o armazenamento e será necessário criar 20 unidades destas peças com a possibilidade de reposições no futuro.

Desenhe sua peça

Não sabe desenhar? Rabisque. Coloque medidas, escreva ou pinte nas cores que imaginou, isso torna a peça mais real e te faz ver se o que estava só dentro da sua cabeça faz sentido mesmo.

Defina o processo produtivo da sua peça

Peça pensada e definida, agora é hora de você parar para estudar as possibilidades e necessidades de produção.

Esta peça precisa ser modelada manualmente? Você pode fazer no torno elétrico? Você precisará criar um molde de gesso? Você vai fazer utilizando uma técnica de modelagem manual? Você precisa fazer quantas em um dia? Tem algum prazo específico para entregar?

Pensar a melhor forma de chegar ao resultado esperado é algo que acontece quase que naturalmente quando já temos o hábito de criação em um ateliê. Quando pensamos em uma peça logo vem junto a forma de produzir, geralmente dentro das nossas habilidades mais pronunciadas.

Quem trabalha com torno pensa a melhor forma de fazer aquilo no torno, quem trabalha com moldes, a melhor forma de fazer no molde, o mesmo se dá para as técnicas de modelagem manual. Eu penso que devemos pensar sim nas nossas melhores habilidades mas, sem desconsiderar o que é melhor para aquela peça! Às vezes o resultado ficará muito melhor, mais fiel ao que idealizamos, se nos esforçarmos por aprender e aperfeiçoar algo novo, diferente do que estamos acostumados.

Os processos de queima e esmaltação também se enquadram nesta minha observação mas acredito que sejam um pouco mais complexos de se alterar. No mundo da cerâmica existe como que por convenção a ideia de que você precisa definir seu tipo de queima, a temperatura de suas queimas e se ater a isso na sua produção. Desta forma você passa a conhecer os resultados daquela queima, daquele forno e daquela temperatura e pode explorar e criar ali, já que a variação de temperatura é algo com impacto gigantesco nos resultados. Devo dizer que eu ainda estou buscando esta temperatura ideal para o meu trabalho, mas concordo plenamente com esta estratégia.

Definindo a queima, podemos criar e variar nos esmaltes, nas massas e explorar um universo minimamente controlado.

Exemplo:

O prato que irei criar. Depois de refletir um pouco eu penso que a melhor forma de fazê-lo é com um molde de gesso para placa que já me possibilite ter o relevo dos círculos na parte interna.
Supondo que eu tenho que entregar todas as unidades para meu cliente em 45 dias, eu preciso produzir as peças de forma rápida, portanto precisarei de, ao menos 4 moldes para dar conta da produção.
Serão então feitos com placas de argila, com uma espessura de 7mm. Vou utilizar argila marfim com chamote do Pascoal ou branca com chamote da Nova Farias

Estas placas serão sobrepostas sobre o molde, pressionadas, alisadas e refiladas. Ficarão ali, secando por aproximadamente 30min (pela minha experiência com este tipo de molde sei que é mais ou menos isso) e depois serão retiradas do molde com o auxílio de uma tábua para suportar a peça. Consigo criar 20 peças em 1 único dia com o uso de 4 moldes, mas farei 4 unidades excedentes para qualquer imprevisto.
Depois de retiradas do molde as peças ficarão secando até seu ponto de couro para que, então eu possa dar acabamento. Estando prontas e em ponto de couro posso transferir as peças diretamente para prateleiras aramadas para que terminem de secar o que levará um mínimo de 1 semana.
Em ponto de osso vou biscoitar as peças a 1000ºC e, depois, aplicarei cera na parte de baixo das peças e esmaltarei por imersão, já que irei utilizar o esmalte branco que é comum em meu trabalho e tenho ele preparado em balde. Se fosse utilizar outra cor, esmaltaria as peças no pincel.

Vou queimar o esmalte a 1260ºC (cone 8 – Brascone) e, no meu forno cabem 2 pratos por prateleira. Precisarei de 2 queimas para ter todas as peças finalizadas.

Agora que eu criei o processo hipotético do meu exemplo eu preciso te dizer que ele ainda é um processo hipotético. Eu ainda preciso validar este processo antes de confiar nele, portanto partiremos para o próximo passo…

Faça um protótipo

Aqui é o momento em que você precisará efetivamente colocar as mãos na massa!

Teste com a sua argila de uso comum ou experimente uma outra que se propôs a usar para ter o resultado esperado. No meu exemplo eu coloquei duas opções de massas claras já pensando no resultado final que quero. Eu sei que a marfim do Pascoal Massas é um pouco mais inerte que a branca da Nova Farias que, por sua vez, com o meu esmalte branco, cria bordas alaranjadas, o que pode ficar interessante no resultado final da minha peça.

Precisa fazer um molde? Essa é a hora de fazer. Precisa testa uma nova técnica, essa é a hora de testar. Precisa testa cores de esmalte, testa agora.
Faça o seu protótipo prestando atenção a todos os detalhes do processo e avaliando os resultados obtidos.

Caso o resultado final não seja o que você esperava, revise seu planejamento e veja onde pode melhorar e, caso seja algo que realmente é inviável, por conta da impossibilidade de materiais e recursos ou mesmo porquê você não vai dar conta, estude as possibilidades de adaptação às necessidades. Te garanto que possibilidades não faltam! Olhe livros, vasculhe a internet, veja o trabalho de outros ceramistas e se inspire nas possibilidades 🙂

Exemplo:

Preciso criar um molde de gesso e, para isso preciso do negativo de uma das minha peças… Posso fazer este negativo em argila mesmo, em madeira, impressão 3D, inúmeras possibilidades.
Para criar este molde eu preciso estudar a redução das massas com que vou trabalhar e considerar isso na construção do negativo e do molde.

Posso fazer amostras de ambas as argila e queimar para estudar a redução de cada uma na temperatura em que decidi trabalhar, neste momento posso já testar o esmalte e decidir por uma delas.
Decidi também fazer o negativo do meu molde em argila mesmo. Vou pesquisar e estudar a melhor forma de fazer este molde, criar o negativo, tirar o molde e, aí sim, construir a primeira prova da minha peça.
Vou aproveitar para fazer 4 unidades para já avaliar se o molde dá conta de produzir 4 peças sem ficar encharcado, como eu havia previsto.
Vou passar estes protótipos por todo o processo previsto, de biscoito e esmaltação e chegando no final, poderei avaliar se está do meu agrado, segundo tudo o que eu especifiquei e, se necessário fazer alguma alteração no processo ou simplesmente começar a produção propriamente dita!


 

Eu sei que muito do que falei aqui se aplica à minha realidade como ceramista que produz peças para comercializar, mas eu acredito que o processo pode ser adaptado e aproveitado em partes para outros tipos de produção.

Minha intensão aqui é apenas demonstrar que é possível criar design autoral com um processo definido e facilitar a vida de quem não sabe por onde começar, como eu estive durante muito tempo.

Ainda hoje eu sofro com a organização e as frustrações da criação que não deu certo. A cerâmica tem muito disso, mas eu acredito que muito do que nos frustramos é, na realidade, fruto da falta de conhecimento técnico sobre materiais e processos então espero, de coração que o que venho publicando e ainda pretendo publicar por aqui seja uma forma de te auxiliar na tua jornada nesse universo mágico de pózinhos mágicos e altas temperaturas!

Cynthia Sarmento

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